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Sem Título #2



Movimentos involuntários de preguiça. Percebo o próprio corpo. Acordo. Coço o olho. Não estou metamorfoseado em um inseto. Percebo o quarto, a claridade do dia pelos buracos da janela. Sento na beira da cama. Levanto e saio tonto do quarto.


Todos nós sonhamos?/Como se movimentam os ossos?/O que acontece com o ar que respiramos?/Por que o coração bate?/Como se movem os olhos?/Como eram as habitações da antiguidade?/Todos envelhecem?/ Por que se morre?/Por que fazemos xixi?/Etc.


Puxo a descarga, lavo o rosto, seco o rosto. Olho o relógio, o calendário, tomo consciência da realidade. Coloco a água pra ferver, pego o café na geladeira, passo o café, ligo o rádio. A Mei sai do quarto, dá bom dia, pede ovo cozido, pega um livro. Coloco a água pra ferver, pego o ovo na geladeira. Ela abre o livro. Procura uma página específica. O livro é o volume de uma enciclopédia: Grande Enciclopédia da Criança – Volume 3. Acha a página e me mostra a ilustração de um ovo. Tá tudo ali na enciclopédia. Até o ovo da Mei tá ali na enciclopédia.


Como eram as primeiras cozinhas?/ Por que colocamos todos os alimentos na geladeira?/É necessário tomar um bom café da manhã?/O que se comia na Idade Média?/Quando amadurecem as frutas?/Como é feita a digestão?/É verdade que algum dia nos alimentaremos com pílulas?/Quem imprimiu os primeiros livros?/ O que é o tempo?/Sempre usamos relógio?/Etc.


As coisas não querem ser vistas por olhos medíocres. Algo assim. E por mais medíocre que seja uma rotina, não tem nada ali por acaso. Estou cercado de coisas curiosas e todas essas coisas curiosas estão nas páginas de uma enciclopédia. Uma enciclopédia levanta questões sobre tudo e dá respostas ricamente ilustradas. Das questões mais ordinárias, passando pelas espinhentas, pelas curiosas até às grandes questões. Tá tudo ali, organizado em volumes numerados. Cápsulas do tempo.


Eu gosto de enciclopédias porque elas simulam uma experiência intensa de vida, sem se colocar no centro, absorvendo tudo o que está ao redor com a mesma fome de quem sabe que será engolido pelo amanhã.


Rafael Sica, fevereiro de 2023.


*A imagem que ilustra Sem Título #2 foi tirada da Primeira Enciclopédia (Editora Maltese,1987).

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